#24 – Da Estrada, Parte Dois – O Gigante Veio ao Chão

Essa história já é conhecida pelos meus amigos, e quando saio pra cantar e as pessoas pedem pra eu contar alguma história engraçada, é sempre essa que eu conto.

O ocorrido se deu em 2006. O Novo Tom e o Coral UNASP haviam feito uma turnê pelo Nordeste, e ficamos mais de 20 dias longe de casa. A turnê foi muito legal, fizemos 15 apresentações ótimas, e fechamos a turnê em Maceió. Sairíamos de Maceió na quarta-feira de manhã após o último show, durmiríamos em hotel perto de Itabuna, BA, e depois seguiríamos viagem direto até o UNASP. Tudo ocorreu de acordo com o combinado. No meio da viagem na quarta, paramos em restaurante de beira de estrada para almoçar. Eu comi macarrão com frango. Erro número 1. Seguimos viagem, crentes que chegaríamos no hotel em Itabuna por volta das 22h, mas nada de hotel e nada de Itabuna. Como o Lineu não queria perder tempo jantando, paramos em um posto, ele desceu e comprou todos os salgadinhos e refrigerantes existentes. Erro número 2. Quem me conhece sabe que eu gosto de comer uma besteira, mas os salgadinhos são uma exceção. Imagine você aquele ônibus, que se tornou nosso lar por 20 e poucos dias. O “cheiro de humanidade” já não bastava. Era necessário o acréscimo do cheiro de Cheetos. Mas tudo bem. Finalmente, às 3:45 da manhã, encostamos o ônibus e o caminhão no Hotel Flecha, onde dormimos umas poucas horas.

Acordei com uma leve indisposição. Ao longo do dia, bebia água, refrigerante, suco, pra ver se passava, e nada. Comi pouca coisa durante o dia pra não piorar o mal estar, e passei boa parte da viagem reclinado na minha poltrona, assistindo a um seriado no computador. Erro número 3. Não consigo ler ou assistir nada em veículos em movimento. Fico muito enjoado. Enfim, estava anoitecendo, e fizemos uma parada para abastecer. Sentei direito na minha poltrona e minha pressão baixou. Um dos coristas olhou pra mim e disse, “Cara, como você tá branco!” Eu, às portas da morte, lhe dei uma cédula de R$5 e pedi que comprasse um Gatorade pra mim, pois não teria condições de descer do ônibus. Lá foi ele, todo prestativo, comprar o Gatorade pra mim. Passaram-se alguns minutos e eu pensei comigo mesmo, “Vou descer e tomar um ar, pra ver se melhoro.” Erro número 4. Era um ônibus double decker, então a escada fica no meio do ônibus ao invés de ficar na frente, e ela é dá umas voltas. Lá fui eu, me equilibrando pra não cair. Quando eu enfim consegui sair do ônibus, me encostei no mesmo, de olhos fechados, mais às portas da morte do que antes. O Lineu e o Staut olharam pra mim e perguntaram: “Cara, você tá bem?” Abri meus olhos e lhes respondi: “Não.” Nisso chegou o Wylli, o prestativo corista que me comprou o Gatorade. Eu peguei a garrafa, e estava tão fraco que mal conseguia abrir o lacre. O Wylli tomou a garrafa das minhas mãos e abriu o lacre e desenroscou a tampinha, para que eu pudesse apenas levantá-la e beber aquele líquido horrendo.

Foi o que eu fiz.

A última coisa da qual eu me lembro foi levantar a tampinha.

Foi assim: levantei a tampinha, e ela foi ao chão. O Lineu e o Staut olharam para a tampinha e em seguida para mim. Fui beber o Gatorade, e a garrafa foi ao chão. O Staut se agachou para pegar a garrafa e o gigante foi ao chão. Agora pense comigo. Eu tenho mais de 1,90m. Pesava um pouco menos do que peso hoje, mas mesmo assim. Cair em cima de um amigo não é brincadeira, e dizem que quando você está desmaiado, você fica mais pesado ainda. Diz a história que depois de muito esforço e muitas mãos, conseguiram me arrastar para a entrada do ônibus. Parecia coisa de filme. Fui abrindo os olhos, e estava tudo embaçado. Vi o rosto da Thaís, esposa do Staut, de cabeça pra baixo. Do nada, ouço a voz da Lanny clamando: “Voltou! Voltou! Voltou!” Aos poucos, tudo foi ficando mais claro, e olhei pro alto. O Ismael, motorista do nosso caminhão, segurava minhas pernas pra cima. O corredor de entrada do ônibus era muito pequeno, e minhas pernas precisavam estar esticadas para que o sangue pudesse circular normalmente. Atrás do Ismael, muitos coristas olhando pra mim, batendo palmas, aliviado por eu estar vivo. Em seguida, lá vem o pobre do Staut, correndo com um pouco de sal em cima de um guardanapo pra pôr debaixo da minha língua. Um verdadeiro furdunço.

Depois de um tempo, consegui me levantar, me dirigi à minha poltrona e dormi. No dia seguinte, já estava mais disposto. Dois dias depois, foi como se nada tivesse acontecido.

Mais uma história pra contar.

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2 comentários

  1. hahahaha marcel! nao aguento sua gama de detalhes!!! daria um dedo pra estar nesse dia, que embora tenha sido uma situação NADA confortavel, deve ter sido bem marcante ahahha
    aii como tenho saudadee das viagens pedreiras!

  2. Por sentir na pele algo parecido, eu me pergunto por que essas coisa só acontecem na BA, comigo foi semelhante.

    Em 2009 eu participei de uma escola de música, EMME, escola de música, ministério e evangelismo. Era bem intenso e foi por nove meses de pura viagem, já tinha passado 3 meses nessa vida pra todos os lados do país, e eu já achava que sabia tudo de viagem, não conseguia ler dentro do ônibus pelo mesmo motivo, mas aí comecei a insistir mesmo morrendo de enchaqueca continuava lendo, pra me acostumar, e hj não sinto mais nada. Daí saímos do acampamento Palavra da Vida no PR e já havíamos passado por todo sudeste apresentando musicais e eu estava bem, certa hospedeira em Itabuna- BA, me ofereceu de suas primícias e quase me forçava a comer tudo que tinha na mesa, a viagem foi enorme, então comi bastante, e fui dormir kkk(problemas). Eu tinha que subir uma escada em direção ao quarto e me senti como se tivesse 450 Kg subindo aquela escadaria do cristo redentor, e só lembro que disse a minha amiga da turma que estava mal e apaguei, acordei suando muito, um calor que não passava q não sentia nada, além do estômago estufado. Tomei aquele banho, melhorou um pouco, fui apresentar, tudo aparentemente normal, no outro dia comecei a ir com frequência ao banheiro, sentia muitas dores e suava frio, passei por Salvador-BA, outra hospedagem e eu piorando, estava me aproximando de Maceió, minha cidade, iríamos apresentar eu estava feliz e muito revoltada por que gripei, fiquei rouca, estava um lixo. Próximo destino: o lar. Seguindo viagem fui lendo ” A paz que excede todo entendimento” de kathleen litterton, mas já não estava entendendo nada quando, chegando a maceió, senti uma cólica terrível e comecei a suar, daí cheguei pro tio Ismael( será ele o mesmo que dirigiu o caminhão?) e clamei, tio para no posto mais próximo, não estou aguentando, pra minha infelicidade o mais próximo estava a meia hora dali, tia Liege, esposa dele, me acalmava, fazia comer banana, e intercedia por mim, deu pra ver sua preocupação, Nossa! não fosse ela eu não entrava rápido no banheiro, corri, e deixei todo excesso por organização de toaletes que havia no sul, por um simples sanitário, tão necessário. Cheguei em casa, que maravilha, a EMME estava aqui e eu nem podia cantar, quanto mais ficar muito tempo sem ir ao banheiro, mas aí, minha mãe tão sábia orou por mim, me ungiu e me deu remédio, Floratil, “tiro e queda” no outro dia eu já estava melhor, ía ao banheiro com menos frequência, fiquei tão feliz, e muito triste porque já tinha que deixar meu povo e seguir para Recife, lá vou eu no meu canto, lendo meu livro que terminei de lê e entender quando chguei lá, e levando o amor de Deus pelo NE. E essa foi a única vez em que 30 min, foram eternos para mim durante o ano, e foi inesquecível. Saudades das boas viagens, só das boas.

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