#23 – A Grande Família

Toda família tem suas tradições e peculiaridades na época do Natal. Com a minha família por parte de mãe, não é diferente. A minha avó, Dona Áurea Soares, sempre promoveu encontros familiares na época do Natal. Caprichosa como sempre foi, ela chegava a planejar cada encontro com dois anos de antecedência, e foi estabelecido que cada encontro se daria de dois em dois anos. O primeiro encontro do qual eu me lembro foi quando ela e meu avô Williams ainda moravam em Belo Horizonte. Me lembro das coletâneas coloridas pra todos cantarem, me lembro das pecinhas que fazia com meus primos, e me lembro que meu irmão ganhou um LP do Leandro & Leonardo (pra quem conhece meu irmão hoje em dia, isso é muito engraçado).

O próximo encontro foi em 1992, e coincidiu com a inauguração da casa que meus avós haviam construído em Artur Nogueira. Era uma casa grande, com quatro quartos, e uma das coisas que mais chamava a atenção: uma mesa de jantar de 5 metros. O motivo? Para que todos nós (éramos em 18 pessoas na época) pudéssemos nos sentar à mesa juntos para todas as refeições. No final da mesa havia uma cadeira maior, na qual ninguém podia sentar, pois era a cadeira de Jesus.

“Nem pra sentar no colo dEle, vozinha?”
“De maneira nenhuma!”

Minha avó, sempre muito organizada, tinha um cronograma e um tema para cada encontro. Não me lembro dos demais, mas me lembro daquele primeiro, em Artur Nogueira: “Que Bom Que Você Veio!” Eu ia ao banheiro, lá tinha um mimo com essa frase. A gente se sentava pra comer, e lá tinha outro mimo com essa mesma frase. E mesmo de férias, tínhamos horários para cumprir. O café da manhã se dava às 8 da manhã, e TODOS os membros da família tinham de estar presentes. Logo após o café, culto. Agora, imagine você, com 9 anos de idade, e aquela piscina azul brilhando, o sol rachando, e você ter que ficar confinado aos limites da sala íntima para assistir a um vídeo do “Está Escrito” com o Pastor George Vandeman depois de ter cantando muitos e muitos hinos da coletânea familiar. Era pra acabar. Depois do culto, desfrutávamos da hora do “lazer”, e em seguida, almoço ao meio-dia. Mais lazer à tarde, jantar às 6 e depois do jantar? Mais culto! Dessa vez eram todos na sala de estar, debatendo sobre temas sérios, onde só os adultos participavam. Os primos? Zzzzzzzzz…

Assim acontecia todos os dias desses nossos encontros. Inclusive, era tanto culto que minha mãe denominou os nossos encontros de “Bienal da Bíblia”! E não era raro nós ganharmos Bíblias da minha avó de Natal. Algumas delas tenho guardadas até hoje.

A medida que fomos crescendo e desenvolvendo nossas opiniões, algumas coisas no cronograma da minha avó tiveram que ser alteradas. Ninguém merece, depois de um ano de estudo e trabalho, ter que acordar às 7:30 da manhã em plenas férias. Instituímos o brunch. Assim cada um acordaria na hora que quisesse, e a mesa continuaria posta, com muita fartura, e a única refeição que faríamos juntos seria o jantar. Sugestão aprovadíssima, essa. Minha avó tem três filhas e uma nora. Cada uma delas se responsabilizaria por um dos jantares, mas todas se ajudavam…menos a minha mãe. Ela sempre preferiu cozinhar tudo sozinha no dia dela pra depois aproveitar o sol e a piscina enquanto as outras se desdobravam em 10 pra fazer os outros jantares. Ainda bem que eu não a puxei…rsrsrs!

O culto matutino também foi destituído, e o culto vespertino também se tornou mais prazeroso, já que todos nós tínhamos capacidade de participar. A Santa Ceia também foi instituída na noite antes da véspera do Natal. Todos sempre se vestiam de branco para simbolizar a pureza dessa cerimônia. E claro, véspera de Natal, com aquela ceia. A minha tradição pessoal é sempre pegar logo a coxa do peru. Tenho várias fotos, daquelas bem finas, dando aquela primeira mordida na coxa, como se fosse um troglodita. Bons tempos. E na sequencia, a revelação do amigo que nunca é secreto, mas é sempre bem engraçado.

Faz um bom tempo que a família toda não se reúne. Quatro dos oito netos já estão casados, e com isso, o núcleo familiar se expandiu bastante. Mas semana que vem, meus avós completam 60 anos de casados, e todos os 26 componentes estarão reunidos. Já estou até vendo aquele alvoroço de quem vai ficar aonde, as disputas de banheiro e de ferro de passar roupa, as gritarias, gente falando uma em cima da outra, muita música, muita arte, muitas opiniões, muita risada.

Minha família não é perfeita. Já passamos por momentos muito felizes e por momentos muito duros. E mesmo assim, nós continuamos unidos. E família é assim. A gente briga, discute, discorda, chora, perdoa, e apoia. E sou grato a Deus por essa família.

Não vejo a hora de chegar semana que vem.

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7 comentários

  1. Caramba, 60 anos de casados. Lindo isso. Não sou muito fã de grandes jantares, mas é por canta da ausência disso na minha infância. então, hoje, quando isso acontece, não acho muito atraente…rs..mas acho legal (de longe) ver famílias juntas assim. Parabéns aos seus avós e boas festas desde já.

  2. Ao ler o seu post, me deu uma pontinha de inveja! rsrsr quem me dera ter um família grande e unida!

    feliz natal pra todos da usa família

  3. já tinha ouvido sobre os rituais natalinos da tua família. Dona Áurea Soares foi preceptora da minha mãe em sua época de internato no ENA. Inclusive ela acabou pegando alguns costumes parecidos. Mas realmente é bem mais difícil reunir a família quando os pequeninos crescem.

  4. Somos parte dessa família e sou uma mãe orgulhosa! Estou muito feliz por estar aqui pertinho de você, do Guigo e de toda a familia!!!
    Sei que já estamos construindo novas memórias que estão sendo adicionadas às existentes! Família – one for all all for one:)
    Amo você!!! beijos
    Mommy

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